Sociedade e Cultura
O que havia lá dentro
Palmares funcionava como uma rede de mocambos, palavra que nos documentos do período antecede o uso do termo quilombo, espalhados pela Serra da Barriga e regiões adjacentes. Cada mocambo tinha lideranças próprias, atividades específicas e autonomia relativa, mas reportava à capital, o Mocambo dos Macacos, de onde emanava a autoridade política central. A analogia mais precisa para essa estrutura não é a de um assentamento de fugitivos, mas a dos gênos da África Central: unidades políticas ligadas por parentesco real ou simbólico a uma liderança maior, num arranjo que os próprios portugueses reconheciam como equivalente aos reinos africanos com quem negociavam do outro lado do Atlântico.
Os nomes dos mocambos registrados pelos portugueses confirmam essa lógica: Amaro, Acotirene, Subupira, Osenga, Dambiabanga. A maioria leva o nome de seus líderes, exatamente como as aldeias angolanas da época. Subupira funcionava principalmente como campo de treinamento e organização militar. Amaro ficava nos limites norte do território, servindo como ponto de retirada da liderança em situações de crise. A capital concentrava a produção manufatureira, o poder político e a vida pública.
Essa descentralização não era apenas administrativa. Era também uma forma de sobrevivência: a queda de um mocambo não significava a derrota do sistema. A população e os recursos migravam para outros pontos da rede, que se reorganizava. Palmares foi declarado destruído mais de uma vez por governadores que voltaram para o litoral convencidos de sua vitória, apenas para descobrir, nos meses seguintes, que os mocambos haviam se rearticulado em regiões que as expedições não haviam mapeado.
Quem vivia em Palmares
A população palmarina era heterogênea desde o início. A maioria era composta por africanos e seus descendentes, muitos deles falantes de quimbundo, provenientes da região de Angola e do Congo, o que conferia à comunidade uma base linguística e cultural relativamente coesa e da qual emanava boa parte de sua organização política. Havia também indígenas, mestiços e, ocasionalmente, pessoas brancas marginalizadas pelo sistema colonial. Alguns mocambos eram majoritariamente indígenas, como o Engana-Colomim, cujos habitantes combateram as tropas coloniais ao lado dos palmarinos.
Essa diversidade não era apenas demográfica. Era também técnica. O conhecimento indígena do território e das espécies locais complementava as tradições agrícolas e metalúrgicas africanas. As táticas de guerrilha que os documentos coloniais descrevem como características dos palmarinos têm paralelos diretos tanto nas práticas de combate dos Imbangalas angolanos quanto nas formas de resistência indígena ao avanço colonial no interior do Brasil.
A liberdade, dentro de Palmares, não era uniforme. Havia hierarquias políticas, lideranças com autoridade coercitiva e, segundo alguns documentos, mecanismos de trabalho compulsório para aqueles que chegavam ao quilombo por meio de ataques a fazendas, em distinção daqueles que chegavam por fuga voluntária. O que não havia era a escravidão atlântica, com sua racialização absoluta, sua hereditariedade e sua subordinação à acumulação de riqueza de terceiros.
Economia e Comércio
A base econômica de Palmares era agrícola e deliberadamente diversificada. Cultivavam mandioca, milho, feijão, batata-doce e cana, além de produzir óleo de palma, farinha, cabaças e objetos de metalurgia. A capital dispunha de múltiplas oficinas de metalurgia, das quais saíam as ferramentas e as armas que abasteciam a confederação. A produção excedente era destinada ao comércio com colonos das redondezas, que trocavam mantimentos e manufaturados palmarinos por tecidos, sal, pólvora e armas de fogo.
Esse comércio era suficientemente estável e regular para criar relações de dependência mútua. Domingo Jorge Velho, em carta ao rei de Portugal, acusou moradores coloniais de comportar-se como "colonos dos negros", pagando tributos em ferramentas e insumos para habitar regiões próximas a Palmares com alguma forma de permissão tácita da confederação. Um desembargador, segundo o mesmo documento, criava gado nas terras dos palmarinos, que tinham os melhores pastos da região, e pagava com armas de fogo em troca.
A rede comercial era também uma rede de informação. Os mesmos canais que traziam pólvora e sal traziam notícias sobre expedições em preparação, movimentações de tropas e intenções do governo colonial. Quando o tenente Jürgens chegou à capital em 1645, ela havia sido evacuada seis dias antes, avisada por alguém em Alagoas. A invisibilidade de Palmares não era apenas geográfica.
A política, religião e cultura de Palmares
A liderança máxima da confederação carregava o título de Gana, palavra quimbunda que significa senhor ou fidalgo, distinto de Ganga, que aponta para sacerdote ou líder religioso. A ambiguidade entre as duas grafias nos documentos coloniais é um problema ortográfico do período, não uma questão de identidade: o português do século XVII não tinha regras fixas para nomes próprios. O que os documentos deixam claro é que se tratava de um título político, não de um nome, e que havia múltiplos portadores de títulos semelhantes, como Ganazona e Ganamisa, subordinados à autoridade central.
A estrutura política era, nas palavras da historiadora Silvia Lara, organizada segundo uma gramática política centro-africana. O que isso significa, concretamente, é que os mecanismos de autoridade, sucessão, dissidência e negociação usados em Palmares eram reconhecíveis tanto pelos palmarinos quanto, em alguma medida, pelos portugueses que tinham experiência diplomática com reinos angolanos. Quando Gana Zumba enviou uma embaixada ao Recife em 1678, a forma como o fez, incluindo a composição do grupo, o protocolo de apresentação e as cláusulas negociadas, seguia um modelo que os governadores de Pernambuco identificaram como legítimo o suficiente para responder com honras equivalentes.
Sobre a vida religiosa e cultural de Palmares, os documentos são fragmentários e filtrados pela percepção europeia. O que os holandeses chamaram de "igreja" em 1645 era provavelmente alguma forma de espaço de culto ou reunião ritual que eles conseguiram identificar como estrutura religiosa sem conseguir nomeá-la com precisão. Práticas culturais trazidas de diferentes regiões africanas e adaptadas às condições da serra coexistiam com elementos absorvidos da cultura colonial, incluindo o batismo católico, que aparece nos documentos do acordo de 1678 como parte do ritual de vassalagem sem que isso implique conversão religiosa genuína.
O que emerge dos documentos é uma comunidade que não estava tentando restaurar integralmente nenhuma África específica, mas que usava o que tinha à mão, incluindo palmeiras que não eram exatamente as mesmas mas se pareciam o suficiente, para construir algo que funcionasse.