Contexto Histórico
Origens do Quilombo de Palmares
Durante o século XVII, o comércio de açúcar e escravizados era o grande negócio que movimentava a economia do Brasil sob domínio português. A escravidão atlântica se diferenciava de outras formas de servidão pela sua escala sem precedentes e pela racialização absoluta da condição servil. Dessa maneira, a primeira grande concentração de mão de obra cativa se deu em torno dos canaviais do Nordeste, em especial, na capitania de Pernambuco, que se tornaria o epicentro de um dos mais célebres exemplos da resistência negra das Américas: o quilombo dos Palmares.
Registros coloniais indicam que o governador Diogo Botelho já preparava uma expedição para eliminá-lo entre 1602 e 1608. Era então um ajuntamento pequeno, situado nas serras do interior da capitania de Pernambuco, onde o terreno íngreme e a mata fechada tornavam qualquer investida militar um problema logístico sério antes mesmo de se tornar um problema militar. A economia açucareira estava em franca expansão no litoral, e as fugas, ainda que individuais ou em pequenos grupos, eram uma constante que os senhores de engenho tentavam conter com vigilância e punição. Alguns fugidos encontraram, nas serras, condições para ficar.
O que havia na Serra da Barriga antes de Palmares consolidar-se como quilombo é uma questão que os documentos não respondem com clareza. É provável que comunidades indígenas já ocupassem parte daquele território, e que tenham sido decisivas para a permanência dos primeiros grupos de fugidos, fornecendo conhecimento do terreno, técnicas de subsistência e, possivelmente, alguma forma de aliança. A história de Palmares começa, portanto, não com um ato fundador, mas com uma acumulação silenciosa de pessoas que decidiram não voltar.
Em 1630, a Companhia das Índias Ocidentais holandesa invadiu Pernambuco. O objetivo era preciso: quebrar a hegemonia portuguesa no comércio do açúcar, que dependia do controle simultâneo da produção no Brasil e do tráfico de africanos escravizados na costa angolana. A disputa entre os dois impérios se estendeu por décadas, devastando engenhos, queimando canaviais e desorganizando de forma profunda a vigilância senhorial sobre a mão de obra cativa.
Nesse vácuo de ordem, as fugas deixaram de ser individuais. Pessoas fugiam do cativeiro, mas também da guerra em si, que tornava as fazendas do litoral tão perigosas quanto a floresta. Esses fluxos de fugidos alimentaram comunidades que já existiam no sertão da capitania, e Palmares cresceu de forma acelerada entre 1630 e 1654, o período mais intenso do conflito.
Os holandeses perceberam o problema tarde. Quando finalmente enviaram expedições para destruir Palmares, depararam-se com algo que seus relatórios militares não sabiam exatamente como descrever. A expedição de Rodolfo Baro, em 1644, chegou a entrar no território palmarino, matar cerca de cem pessoas e capturar outras tantas, mas não obteve vitória decisiva. Os palmarinos recuaram para a floresta, esperaram, e atacaram as propriedades holandesas assim que as tropas se retiraram. No ano seguinte, a expedição comandada pelo capitão João Blaer e depois pelo tenente Jürgens passou trinta dias percorrendo a serra, encontrou dezenas de mocambos vazios e uma capital evacuada com seis dias de antecedência, queimou o que pôde e voltou sem prisioneiros significativos. O diário de Jürgens, uma das fontes primárias mais detalhadas sobre o interior de Palmares, descreve uma cidade de duzentas e vinte casas, quatro forjas, uma casa de conselho e dois chafarizes. Uma cidade vazia, mas inegavelmente uma cidade.
Em 1654, os portugueses expulsaram os holandeses do Nordeste. Palmares havia crescido durante toda a guerra. Os novos dominadores da capitania herdaram o problema dos antigos, agravado.
A Era de Gana Zumba
A partir da década de 1660, o governo colonial português passou a atacar Palmares de forma sistemática, financiando expedições quase anuais que, sem exceção, retornaram derrotadas ou inconclusivas. Em 1663, duzentos homens permaneceram em combate por cinco meses e voltaram com sessenta prisioneiros e muitos feridos. Nos anos seguintes, expedições menores subiram a serra e foram vencidas pelo terreno, pela fome ou pelas táticas palmarinas antes de qualquer confronto decisivo.
Foi nesse contexto de pressão crescente que Palmares atingiu sua maior complexidade política. A confederação era então liderada por Gana Zumba, cujo título, em quimbundo, significa senhor ou fidalgo, e que os documentos coloniais traduzem simplesmente como rei. A capital era o Mocambo dos Macacos, que em três décadas havia crescido de duzentas para cerca de duas mil casas. O território total da confederação aproximava-se de nove mil quilômetros quadrados, abrangendo dezenas de mocambos com lideranças próprias que reportavam à capital, numa estrutura análoga à dos gênos da África Central.
A agricultura era diversificada e produzia excedentes suficientes para sustentar um comércio regular com colonos das vizinhanças, que trocavam produtos palmarinos por tecidos, sal, pólvora e armas de fogo. Essa inserção na economia regional era também uma rede de proteção diplomática: havia moradores coloniais suficientemente integrados às trocas com Palmares para que Domingo Jorge Velho, décadas depois, os chamasse de "colonos dos negros" em carta ao rei de Portugal.
Em 1677, o governo de Pernambuco contratou Fernão Carrilho, sertanista experiente na captura de indígenas e quilombolas no sul da capitania, para uma expedição de maior escala. Com cento e oitenta e seis homens, Carrilho invadiu o mocambo de Acotirene, liderado pela mãe de Gana Zumba, e depois perseguiu o rei até o mocambo de Amaro, nos limites norte do território. O resultado foi devastador para Palmares: dois filhos do rei foram mortos, outros foram capturados junto com sua esposa e netos, e o próprio Gana Zumba escapou gravemente ferido. Carrilho ergueu um arraial no coração da serra, pediu reforços e se preparou para o golpe final.
Encurralado, Gana Zumba optou pela negociação. A embaixada que enviou ao Recife em 1678, composta de doze guerreiros armados montados a cavalo, foi recebida com honras de chefe de Estado. O acordo firmado, conhecido como Tratado de Cucaú, previa liberdade para os nascidos em Palmares, concessão de terras numa aldeia próxima a Sirinhaém e cessação das hostilidades. Em troca, todos os que haviam chegado ao quilombo como fugitivos da escravidão deveriam ser devolvidos aos seus senhores. A cláusula era coerente com os tratados de vassalagem centro-africanos da época, mas nas Américas, onde o fugitivo não era um prisioneiro de guerra mas uma propriedade roubada, ela tinha um peso inteiramente diferente.
A Ruptura e a Militarização
Zumbi, sobrinho de Gana Zumba e líder militar da ala guerreira da confederação, recusou o acordo. Não o fez com violência contra o tio: retirou-se com seus homens para o mais oculto das matas, procedendo como se procederia numa dissidência política centro-africana, por afastamento para a fronteira em vez de confronto direto. Uma carta do governador Aires de Souza ao príncipe de Portugal, datada de agosto de 1679, registra que Zumbi havia se abrigado "no mais oculto dos matos", cercado pela "maior parte dos cativos que tinham repugnância de tornarem à casa dos seus senhores."
O projeto de paz desmoronou rapidamente. Gana Zumba foi envenenado em Cucaú em 1680, numa conspiração que envolvia líderes palmarinos alforreados pelo acordo. O governador usou o episódio como pretexto para sitiar a aldeia, prender seus moradores e reescravizar aqueles que haviam descido da serra de boa-fé, quebrando unilateralmente os termos que ele mesmo havia assinado.
Com a morte do tio e a destruição de Cucaú, Zumbi assumiu a liderança de Palmares e conduziu uma transformação profunda na sua organização. O modelo de reino linhajeiro, com capital fixa e estrutura administrativa centralizada, cedeu espaço a uma confederação mais móvel e militarizada, com mocambos descentralizados em constante deslocamento e uma postura ofensiva que as expedições anteriores não haviam encontrado. Os ataques às fazendas vizinhas, antes oportunistas, tornaram-se sistemáticos, com dupla função: garantir suprimentos e provocar motins nas senzalas, recrutando combatentes de dentro das propriedades coloniais.
Em 1685, o governador reconvocou Fernão Carrilho para uma nova tentativa. Zumbi sabia da expedição com antecedência, posicionou suas tropas estrategicamente nas matas do rio Mundaú e destruiu a coluna de Carrilho antes que o sertanista pudesse montar sua base de operações. Carrilho escapou. A expedição foi um desastre colonial que os próprios governadores reconheceram em documentos oficiais.
Durante a década seguinte, nenhuma expedição portuguesa obteve resultado significativo. Palmares havia se tornado, nas palavras do Padre Antônio da Silva, o "inimigo de portas adentro" que os portugueses não conseguiam dominar mesmo depois de expulsar os holandeses.
O Cerco Final e a Queda
Em 1687, o governador de Pernambuco assinou contrato com Domingo Jorge Velho, bandeirante paulista com décadas de experiência na destruição de comunidades indígenas no interior do Brasil. O contrato era explícito: não havia cláusula de perdão. O único desfecho previsto era a aniquilação de Palmares. Em troca, Jorge Velho receberia terras, títulos, perdão por crimes anteriores e o direito de escravizar todos os prisioneiros capturados.
Jorge Velho levou cinco anos para chegar a Palmares, desviado por uma revolta indígena no norte da capitania. Quando finalmente avançou sobre a serra em 1692, foi repelido numa emboscada palmarista antes mesmo de avistar a capital. Retirou-se, reorganizou suas forças e voltou em 1693 com mais homens, mais munições e seis canhões de artilharia pesada.
O cerco ao Mocambo dos Macacos durou vinte e dois dias. A capital resistiu à artilharia porque os fojos entre as posições impediam que os canhões se aproximassem o suficiente para tiros precisos, e os soldados que tentavam remover as armadilhas eram abatidos pelos defensores. A capital caiu quando a pólvora acabou, não quando as cercas cederam.
Na madrugada de 6 de fevereiro de 1694, enquanto parte da população tentava escapar pela encosta, ouviu-se repetidamente um grito em quimbundo: "Olenga, olenga, o barriga acabou." Olenga, verbo que significa vamos fugir, vamos escapar, era também uma tática de guerra, uma ordem de retirada organizada. Zumbi escapou com um filho nas costas pela beira do precipício e desapareceu na noite sem lua.
Permaneceu foragido por quase um ano, reorganizando pequenos grupos de resistência. Foi traído por um aliado capturado e torturado. Em 20 de novembro de 1695, cercado por tropas paulistas com apenas seis homens ao seu lado, recusou-se a se render e foi morto em combate.