A Queda
O que ficou
A cabeça de Zumbi foi exposta numa estaca em praça pública no Recife. O gesto tinha uma função que os próprios responsáveis reconheciam: desfazer, diante de quem precisasse ver, a crença de que ele era imortal. Essa crença havia circulado durante anos entre negros escravizados e livres, alimentada pelo fato de que diferentes sertanistas haviam anunciado sua morte em diferentes ocasiões, e que Zumbi continuava aparecendo depois de cada anúncio. A exposição pública do corpo era, portanto, uma resposta ao poder simbólico de um homem ainda vivo. É o tipo de gesto que se faz quando se tem medo de uma ideia, não apenas de uma pessoa.
Nos dois séculos seguintes, a memória de Palmares foi manipulada por diferentes interesses. Os primeiros relatos consistentes foram escritos para glorificar governadores e comandantes militares. O texto do historiador Sebastião da Rocha Pita, do início do século XVIII, que se tornou referência para gerações de historiadores posteriores, foi produzido para enaltecer o governo de Caetano de Melo e Castro, que havia assumido o governo de Pernambuco quando a campanha já estava praticamente encerrada e colheu os louros de uma vitória que mal havia presenciado. A narrativa sobre Palmares começou, portanto, como narrativa sobre seus vencedores.
No século XIX, o quilombo foi incorporado ao discurso abolicionista como símbolo de resistência à escravidão, adquirindo contornos heroicos que simplificavam uma história muito mais complexa. No século XX, historiadores como Edison Carneiro começaram a tratar Palmares como objeto de pesquisa histórica séria, distinguindo o que os documentos sustentavam do que havia sido acrescentado por camadas sucessivas de interpretação e invenção. O livro de Décio Freitas, publicado originalmente em 1973 e revisado em edições posteriores, trouxe contribuições reais para o campo, mas também introduziu, na terceira edição de 1981, uma biografia da infância de Zumbi, completa com batismo, criação católica e fuga heroica para Palmares, para a qual o autor nunca forneceu indicação de fontes. Pesquisadores e historiadores procuraram esses documentos desde então. Não os encontraram.
A disputa pela narrativa chegou ao presente de forma mais explícita. Em 2008, o livro Guia Politicamente Incorreto do Brasil, de Leandro Narloch, afirmou que Zumbi mantinha escravos no quilombo, baseando-se numa leitura do livro de Carneiro que, por sua vez, baseava-se no diário de João Blaer de 1645. O problema é que nem Carneiro nem Blaer estavam falando de Zumbi: quando Blaer entrou em Palmares, Zumbi não havia nascido. As fontes que acusam Palmares de praticar saques, assassinatos e recrutamento forçado são abundantes. As que afirmam categoricamente que Zumbi possuía escravos não existem.
Em 1979, quase trezentos anos depois da queda dos Macacos, militantes do movimento negro começaram a subir à Serra da Barriga no dia 20 de novembro, reivindicando o tombamento do território como patrimônio histórico nacional. A intelectual e ativista Lélia Gonzalez estava entre os primeiros grupos. Abdias Nascimento discursou na cerimônia de tombamento, em 1985, invocando ancestralidade e compromisso político no mesmo gesto. A Serra da Barriga foi declarada patrimônio cultural brasileiro e hoje abriga o Parque Memorial Quilombo dos Palmares.
O 20 de novembro tornou-se Dia da Consciência Negra, feriado nacional desde 2023. A data foi escolhida pelo movimento negro precisamente por ser a data da morte de Zumbi, e não a da abolição formal da escravidão, em 13 de maio de 1888. É uma escolha que diz algo sobre como se entende o que Palmares representa: não o fim de um processo, mas o interior de uma luta que ainda não terminou.
O que Palmares foi, historicamente, é mais rico e mais contraditório do que qualquer versão heróica ou qualquer versão difamatória consegue conter. Foi um Estado com hierarquias, disputas políticas internas e decisões pragmáticas difíceis. Foi uma economia com excedentes, comércio e dependências mútuas com o mundo colonial que tentava destruí-lo. Foi uma confederação que sobreviveu quase um século por meio de inteligência, engenharia, tática e uma compreensão muito clara de suas próprias limitações. E foi, também, um lugar onde dezenas de milhares de pessoas viveram, trabalharam, criaram filhos e morreram sem pertencer a ninguém.